• Guilherme Bana – @BoltsBrasil

Tom Telesco como refém das escolhas dos seus Head Coaches - Por @boltsbrasil

Como em qualquer esporte, a avaliação dos treinadores e diretores são muitas vezes pautadas pelos resultados. Na NFL não é diferente. A necessidade de entregar bons resultados ano após ano, independente do caminho adotado para tal, é tida, por muitos, como obrigação.



Então o que explica Tom Telesco, General Manager do Chargers, ainda estar empregado, quando o time pelo qual ele é responsável tem apenas 2 aparições em playoffs em 9 temporadas?


Telesco não é unanimidade para os torcedores do Chargers, como não deveria ser. Apesar de muitas vezes uma decisão pautada apenas em resultados poder ser cruel, a verdade é que o Chargers entregou pouco dentro de campo no período em que ele é o General Manager.


gif

A título de curiosidade, Mike Mayock ficou 3 anos no cargo de General Manager do Las Vegas Raiders antes de ser demitido nessa offseason. Nesse período, o Raiders acabou todas as 3 últimas temporadas a frente do Chargers, de Telesco, e conseguiu classificar o time aos playoffs. Apesar dos inúmeros problemas extra-campo que rodearam a franquia, Mayock conseguiu entregar resultados melhores do que Telesco conseguiu a frente do Chargers, mas mesmo assim não foi suficiente para manter seu cargo.


Porém, o mais curioso de tudo isso, é que a falta de resultados durante esses 9 anos não impediu que o Chargers também demitisse pessoas que estão diretamente relacionadas a obtenção desses resultados. Ora, desde que Telesco assumiu o cargo em 2013, já são 3 head coachs diferentes. Antes da chegada de Brandon Staley, Telesco participou ativamente da contratação de Mike McCoy e Anthony Lynn. Poucos são os General Managers que possuem esse privilégio.


Tudo isso nos leva ao questionamento inicial: por qual motivo o Telesco ainda não foi demitido?


Por óbvio que o Chargers nunca explicou abertamente essa situação, motivo pelo qual a resposta para essa pergunta se torna muito mais um objeto de presunção do que uma apresentação de fatos.



Antes de tudo, vamos ao que pouco se sabe sobre toda essa situação, e que de uma forma ou de outra pode afetar a tomada de decisão por parte do Chargers em relação ao seu GM. A começar por John Spanos, filho do Dean Spanos, dono da franquia, que é o Presidente de Oerações de Futebol (tradução livre) do Chargers. Em outras palavras, John é bem ativo nas decisões que estão estritamente relacionadas a escolha de general manager, head coach, formação de roster e tudo aquilo que pode implicar no produto final dentro de campo.


Basta uma olhada rápida no próprio site do Chargers para perceber a ligação do John Spanos com Tom Telesco. Apesar de já estar no time há muito tempo, foi em 2013 que John se tornou Vice Presidente de Operações de Futebol, ano também que Tom Telesco chegou à franquia. Como colocado pelo próprio Chargers, “essa nova posição lhe deu a oportunidade de colocar sua marca na organização, e ele – John - fez isso como um membro importante no comitê responsável pela contratação do General Manager Tom Telesco”.


Ao longo dos anos, é fácil perceber como a relação entre Telesco e John Spanos se estreitou, a ponto de que o vínculo entre eles se tornou tão forte, capaz de sustentar Telesco no cargo, apesar dos maus resultados. Pode haver algum sentimento de gratidão por parte do Spanos ao Telesco, já que no primeiro ano do GM na franquia, o Chargers foi aos playoffs. Ou então o receio de demitir aquele que se tornou um amigo. Também é possível pensar que o Spanos tem medo de demiti-lo, pois significaria admitir um possível erro, se assim as pessoas entenderem.


É bem verdade que Telesco tem suas qualidades. Ele, junto com Ed McGuire, sempre conseguiu controlar o cap space do Chargers de uma maneira muito boa, a ponto de ser constantemente um dos times com menor índice de dead money e sempre em situações relativamente confortáveis em relação ao salary cap.


Outrossim, todos os head coachs que passaram pelo Chargers sob a tutela do Telesco foram uníssonos ao relatar a boa relação que tiveram com General Manager, salientando que sempre conseguiram trabalhar em perfeita harmonia com ele, o que dá a entender que o Telesco satisfazia a vontade de seus treinadores.


Ora, muito se tem falado nesse início de free agency acerca da agressividade do Chargers no mercado (e antes disso – vide a troca pelo Khalil Mack). E, até por não ser uma característica do Telesco, muito se tem atribuído esses movimentos ao Brandon Staley. Em outros termos, o Staley teria convencido o Telesco a lhe entregar o que efetivamente ele pediu, e o Telesco, de pronto, teria entendido o recado.


gif

Nessa linha de raciocínio e até por provas anteriores, é plenamente possível inferir que o Telesco, durante toda a sua gestão, procurou sempre atender os desejos do seu head coach, independente de qual seria sua própria avaliação acerca do assunto, virando um refém do coaching staff. Nos vem a mente, por exemplo, o trade up por Kenneth Murray em 2020, escolha notoriamente conhecida por ser um desejo de Anthony Lynn e que até o presente momento, uma das piores escolhas do Chargers nos últimos anos.


O problema de ser “refém” do seu técnico e atender todas as vontades deste, é que rapidamente você pode ir de “refém” à “vítima”. Ao confiar tanto no coaching staff, você fica a mercê da avaliação falha de roster e jogadores desse staff. É inegável que o Telesco buscou entregar ao McCoy e ao Lynn as peças que se encaixariam em seus respectivos sistemas, mas você quer mesmo confiar no olho crítico desses dois?


Porém, Brandon Staley, ao que tudo indica, sabe muito bem o que procura e como procura. Tem planos e ideias mais claras de construção de roster e não tem nenhum medo de ser agressivo. E não deveria surpreender ninguém, tendo em vista que ele é pupilo do Sean McVay, um cara que está à frente de um time que não tem nenhum receio de dar all-in.


Sem eximir o Telesco de responsabilidade, pois na figura de um General Manager, ele deveria ser mais incisivo – lembrando, é claro, que isso aqui não passa de uma teoria e apenas isso – e não permitir que toda e qualquer decisão seja tomada pelo head coach. Então a partir do momento em que vemos o Chargers fazendo movimentos que raramente vimos, é válido procurar entender de onde parte essa ideia.


Não se pode olvidar que o contexto ajuda a agressividade – contratos de calouro do Herbert e Slater, algo que o Telesco nunca antes teve -, no entanto esse seria os movimentos que o Chargers faria com outros head coachs no comando? Colocando de outra forma: McCoy e Lynn buscariam trocar pelo Khalil Mack? Contratariam Corey Linsley e JC Jackson?


No fim, é valido questionar se as lacunas de roster que o Chargers teve nos últimos anos são mais fruto da confiança do front office no coaching staff – para que estes avaliem a necessidade de se endereçar ou não determinada posição – e se essa visão é corroborada com a do Telesco, ou se ele apenas se limita a entregar aquilo que lhe é pedido.


Então se a primeira resposta da pergunta feita lá no começo (por que o Telesco ainda não foi demitido?) é a relação dele com John Spanos, a segunda pode ser que o Chargers, enquanto organização, não funciona como a grande maioria. O Chargers talvez dê mais poder e responsabilidade para seu head coach no que diz respeito a jogadores e formação de roster do que para o general manager, de modo que, quando as coisas desandam, quem é responsabilizado e/ou culpado, na visão do John Spanos, seja o próprio treinador e não o Telesco, já que este, em uma visão utópica, atendeu os pedidos do primeiro, mesmo que o Telesco tenha participado do processo de contratação daquele técnico.


Desse modo, pela teoria criada, as críticas direcionadas ao Telesco seriam fruto da confiança que este depositou no coaching staff, tornando-o refém das escolhas do seu staff e, em caso de maus resultados, vítima das más escolhas feitas durante o processo.


Se assim for, ele só pode torcer que o Staley tenha um plano melhor que seus antecessores.

BANNERLATERAL_TRAKTOR.png
BANNERLATERAL_FANATICA.png