• Anna Carolina

Bucs x Pats na semana 4: a volta de Brady a Foxboro

Manhã do dia 17 de março de 2020. O mundo do futebol americano era pego de surpresa pela notícia bombástica: Tom Brady estava de saída do New England Patriots. A parceria com Bill Belichick, dona de seis títulos de Super Bowl, terminava depois de vinte anos. Agora, um ano e meio depois, os dois se encontrarão novamente, desta vez como adversários.


Na semana 4 da próxima temporada, o Tampa Bay Buccaneers enfrenta os Patriots em Foxboro e no Sunday Night Football. Será o primeiro encontro entre Brady e Belichick em lados opostos, desde o “divórcio” conturbado. Os momentos de ambos são completamente diferentes: Brady adicionou mais um anel de Super Bowl para a sua coleção e, hoje, é o maior vencedor de títulos da NFL – mais do que qualquer franquia -; Belichick tem a missão de reestruturar o Pats com um novo QB, Mac Jones. O GOAT e o maior técnico da história da liga hoje possuem uma relação de respeito, mas distante. Entretanto, as coisas já foram bem diferentes no passado.


A história de ambos foi escrita graças ao talento combinado dos dois. TB12 foi draftado na sexta rodada em 2000 e ganhou espaço no ano seguinte, quando Drew Bledsoe sofreu uma lesão. Mesmo após Bledsoe retornar saudável, Bill Belichick manteve o então jovem quarterback como titular, tamanho talento, disposição e foco Brady possuía. Isso permitiu que o head coach se concentrasse em outras áreas do time e aprimorasse o elenco. Vale lembrar que, apesar dos dois títulos como coordenador defensivo dos Giants, Belichick ainda não tinha muito sucesso como um head coach na NFL.


Foi em 2002 que os resultados começaram a aparecer. Em sua primeira temporada como titular, Tom Brady levou os Patriots a uma campanha 11-5 e, em consequência, o primeiro dos seis Super Bowls da equipe. Com o passar dos anos, o relacionamento do QB com o técnico permaneceu quase intacto, com ambos deixando de lado suas personalidades fortes e fazendo a lógica vitoriosa funcionar.


Tom Brady após a conquista do Super Bowl XXXVI, em 2002. Criador: Jim Davis. Créditos: Boston Globe Staff.

Apesar de anos trabalhando juntos, o relacionamento da dupla Brady-Belichick sempre foi descrito como “profissional”. Em matéria publicada pela Sports Illustrated, em setembro de 2015, o próprio Brady contou que não conseguia se lembrar de almoçar ou jantar com o técnico. “Nós estamos tão perto um do outro que, sempre que temos tempo livre, nada acontece”, ele disse na época.


A personalidade forte dos dois também vale um destaque. Ao longo dos anos, Bill Belichick dirigiu um sistema implacável e rígido que diferenciou os Pats de outras equipes. O time da Nova Inglaterra tem a tradição de nunca apostar alto nos drafts, além de permitir que jogadores free agents busquem oportunidades melhores – e mais baratas. Além disso, durante os treinos, nenhum jogador era mais criticado do que Brady, que permitia isso. Segundo a lógica da comissão técnica, era mais fácil para os jogadores entrarem na linha se vissem seu quarterback estrela sendo criticado na frente de todo o time.


Criador: Liynne Sladky/AP. Créditos: Associated Press. All rights reserved.

Entretanto, esse estilo acabou desgastando Tom Brady. Sua filosofia de jogo foi se afastando da de BB cada vez mais. Em 2018, o repórter da NBC Sports Tom Curran explicou a situação: “Belichick tem uma tendência a negatividade. Com o passar dos anos 2010, eu acho que Brady se tornou cada vez mais espiritual e otimista. Sua esposa teve muita influência nisso, assim como Alex Guerrero [treinador pessoal e amigo de Brady], de quem ele é muito próximo. (...) Muito desse estilo de vida positivo vai de desacordo com o que Belichick precisa para comandar o time”.


Outro ponto importante dessa história é o fato de TB12 passar a reestruturar seu contrato ano a ano, com o objetivo de ajudar os Patriots a construir uma equipe mais competitiva. O velho hábito dos Pats em não gastar muito dinheiro na free agency ou deixar jogadores irem embora prejudicou – e muito – o quarterback.


Em 2017, porém, veio o primeiro grande conflito: Jimmy Garoppolo. Tom Brady chegava aos 40 anos, e, para Belichick, era mais vantagem preparar o QB de Eastern Illinois para suceder TB12. Brady, entretanto, não estava interessado nem em perder sua titularidade, muito menos em ser um mentor de Garoppolo. A alternativa foi enviar Jimmy G para o San Francisco 49ers, em troca de uma simples escolha de segunda rodada – algo que Belichick aceitou a contragosto.


Criador: Brett Carlsen. Créditos: Getty Images. All rights reserved.

Ainda naquele ano, uma matéria da ESPN americana revelou mais tensões entre Brady, Belichick e o dono dos Patriots, Robert Kraft. Segundo o repórter Seth Wickersham, o estopim foi Alex Guerrero, personal trainer de Brady. O estilo de vida com dietas, exercícios e filosofias de recuperação da dupla nem sempre estavam alinhadas com as opiniões do time. Os outros jogadores se sentiam pressionados a trabalhar com Guerrero ao invés da equipe, para agradar a Brady. Isso levou Belichick a barrar Guerrero das operações dos Patriots – o que deixou Tom Brady nada feliz.


Apesar dos atritos, New England ainda disputou três Super Bowls, vencendo em 2016 e 2018. Mesmo assim, a situação não estava boa. Cada vez mais indícios do “divórcio” entre Belichick e Brady apareciam na mídia. A questão do contrato do QB se tornou mais um atrito: enquanto Tom Brady queria um acordo de vários anos, Bill Belichick preferiu manter as renovações anuais, em especial com Brady já passando da casa dos 40 anos. Isso levou Brady a definir seu contrato até o final da temporada 2019/20, levando ele a ir para a free agency pela primeira vez na carreira.


A derrota para o Tennessee Titans no wild card foi a “pá de cal” da parceria mais vitoriosa da NFL. Os rumores da saída de TB12 eram mais fortes, e apesar das tentativas de Robert Kraft, o quarterback não mudou de ideia e assinou com Tampa Bay. Após o anúncio, Bill Belichick publicou um agradecimento a Brady, chamando-o de “criador” do sistema dos Patriots. “Às vezes na vida, leva algum tempo para passar antes de realmente apreciar algo ou alguém, mas esse não foi o caso de Tom. Ele é uma pessoa especial e o maior quarterback de todos os tempos”, afirmou o técnico.


Criador: Maddie Meyer. Créditos: Getty Images. All rights reserved.

A era Belichick-Brady não terminou da maneira mais trágica, mas também não foi um final de contos de fada. Pode-se dizer que a história vitoriosa dos dois terminou. Depois de vinte anos, ambos agora caminham separados. O dia 4 de outubro de 2021, porém, tem tudo para ser o primeiro epílogo dessa saga. O capítulo extra da história mais emblemática da NFL.

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