• Lucas Rocha

Brian Flores entra com ação judicial contra dono do Dolphins

Brian Flores, ex-head coach do Miami Dolphins e atualmente desempregado após a demissão no último mês, está processando o dono do Dolphins, Stephen Ross, além de outras 3 franquias, por atos racistas contra técnicos pretos.



Flores abriu uma ação judicial na justiça contra o Miami Dolphins, New York Giants e Denver Broncos, além de Stephen Ross, atual dono do Dolphins. A natureza da ação, porém, tem a ideia de que outros técnicos se juntem a Flores contra as franquias. Flores está entrando na justiça contra as franquias por práticas racistas na NFL, e contra Ross por ações que violam as regras de integridade da NFL e práticas racistas.


“Tank for Tua” se torna ação judicial


Durante a temporada 2019 (primeira de Flores no comando do Dolphins), a famosa frase “Tank for Tua”, dita por muitos torcedores, era uma espécie de súplica para a franquia. Tua Tagovailoa, um dos principais QBs no draft de 2020, era o grande alvo da equipe da Flórida, e a ideia do tank - quando a equipe perde partidas de propósito para ter melhores escolhas no próximo draft - se tornava cada vez mais real. Mas, de acordo com Brian Flores, houve um bastidor podre na busca pelo seu prospecto.


Segundo o HC, Stephen Ross teria oferecido a quantia de $100.000 dólares para cada derrota da equipe na temporada, com o objetivo da equipe perder todas as 16 partidas disputadas naquela temporada (ou o máximo possível para que a equipe tivesse a primeira escolha geral). Flores recusou a proposta, o que gerou atrito entre os dois. A equipe, porém, era fraca, e acabou a temporada com a 5ª escolha geral do draft de 2020 - vale lembrar que, mais uma vez, o Dolphins começou mal a temporada mas melhorou na segunda metade -, e acabaram por escolher Tua Tagovailoa de qualquer forma, visto que o prospecto havia caído nos boards devido a uma lesão no quadril que tinha sofrido.


Mark Brown/Getty Images

Além disso, Ross teria marcado um jantar com Flores e um “quarterback proeminente” que estaria interessado em se juntar ao Dolphins. Porém, o jogador estava em contrato com outro time na época, ferindo as regras da liga, e Flores recusou. Segundo Joe Schad, do portal Palm Beach Post, esse jogador era Tom Brady, que estava em seu último ano de contrato com o New England Patriots. Caso essa notícia seja verdadeira, começa-se a duvidar que a saída de Brady da equipe tenha sido tão amistosa quanto se esperava. Ao não participar do recrutamento de Brady, Flores “foi tratado com desdém e como alguém que não contribuía e dificultava o trabalho de Ross,” segundo a ação judicial.


Miami Dolphins respondem às acusações


Após a declaração de Flores na última terça [01/02], o Miami Dolphins soltou uma declaração dizendo estar ciente das acusações de Flores, e desmentindo-as.


“Estamos cientes da ação judicial revelada pela mídia nesta tarde,” diz a declaração. “Nós veementemente negamos qualquer alegação de discriminação racial, e nos orgulhamos da diversidade e inclusão que temos na nossa organização. As implicações de que agimos de uma maneira inconsistente com a integridade do jogo é falsa. Vamos guardar novos comentários sobre o caso para o momento da ação.”

Brian Flores e Stephen Ross. Créditos: John McCall/Sun Sentinel/Tribune News Service via Getty Images

Giants e Broncos são acusados de práticas racistas nas entrevistas


Além de Ross e do Dolphins, outros dois clubes foram acusados de práticas racistas por Flores. Segundo a ação judicial, New York Giants e Denver Broncos agiram de maneira preconceituosa contra o HC durante as entrevistas para o cargo. Segundo Flores, os dois times só o entrevistaram para “cumprir a cota” da Rooney Rule.


Segundo a ação, o Giants promoveu uma entrevista falsa com Flores na última semana apenas como forma de cumprir a Regra Rooney. Além disso, Flores descobriria que a entrevista não teria passado de uma brincadeira, visto que Flores havia recebido uma mensagem de Bill Belichick, seu antigo “chefe”, parabenizando-o pelo cargo de HC do Giants. De fato, Belichick enviou uma mensagem para Flores, mas o próprio confirmou que a mensagem foi um mal-entendido, e que ele havia confundido Brian Flores com Brian Daboll, o escolhido pelo Giants para a vaga de head coach. As mensagens sugerem, porém, que o Giants já havia escolhido Daboll, e que marcaram a entrevista com Flores apenas para cumprir a regra da NFL.



Ainda segundo a ação, Flores disse que passou por situação parecida em 2019, quando foi convidado para uma entrevista com o Broncos. Segundo Flores, John Elway, na época general manager, e Joe Ellis, presidente e chefe executivo da franquia, se atrasaram mais de 1 hora para chegar na entrevista e, mais uma vez, foi uma entrevista falsa. Segundo a ação judicial, “Eles estavam completamente desgrenhados, e era óbvio que eles haviam bebido muito na noite anterior. Pela maneira como foi conduzida a entrevista, era óbvio que eles apenas estavam entrevistando-o devido a Regra Rooney, e que os Broncos nunca tiveram nem a intenção de considerá-lo para o cargo. Pouco tempo depois, Vic Fangio, um homem branco, foi contratado como head coach do Broncos.”


John Elway e Vic Fangio, GM e HC do Broncos. Créditos: Joe Amon/MediaNews Group/The Denver Post via Getty Images

O que é a Regra Rooney?


Adotada em 2003 pela NFL, a Regra Rooney foi criada a pedido de Dan Rooney, dono do Pittsburgh Steelers. A regra foi criada para que, quando uma franquia estiver procurando head coach, ao menos uma entrevista deve ser feita com um candidato de uma “minoria étnica”. Segundo o próprio Rooney, se algumas das principais estrelas da liga são pretas, porque há poucos treinadores pretos?


Dan Rooney (centro) e diversos jogadores do Steelers campeão de 1974. Rooney foi o nome por trás da Regra Rooney, que tem a intenção de promover maior diversidade. Créditos: Fred Vuich /Sports Illustrated via Getty Images/Getty Images

Os Steelers adotaram a regra e contrataram Mike Tomlin antes da temporada 2007, e o mesmo está no cargo até hoje. Antes da Regra Rooney, cerca de 3% de todos os treinadores da liga eram pretos e, no início da temporada 2006, o número havia aumentado para 22%.


Denver Broncos respondem


“As acusações que Brian Flores fez hoje na justiça contra o Denver Broncos são descaradamente falsas,” segundo o comunicado oficial do Denver Broncos. “Nossa entrevista com o Sr. Flores sobre a posição de head coach há 3 anos começou exatamente no horário marcado, às 7h30 da manhã do dia 05 de janeiro de 2019, em um hotel na cidade de Providence, Rhode Island. Haviam 5 executivos do Broncos presentes na entrevista, que durou aproximadamente 3h30 - o tempo total permitido -, e terminamos por volta das 11h00 da manhã.”

Rich Graessle/Icon Sportswire via Getty Images

“Páginas detalhadas sobre nossas anotações, análises e avaliações da entrevista demonstram a fundo nossas conversas e o interesse sincero do Sr. Flores como candidato para a vaga de head coach. Nosso processo foi justo e detalhado para determinar o candidato mais qualificado para nossa vaga de head coach. O Denver Broncos vai defender vigorosamente a integridade e os valores de nossa organização – e seus funcionários – de reivindicações tão depreciativas e sem fundamentação."

A liga responde às alegações de Brian Flores


Após a resposta dos times, foi a vez da própria NFL soltar uma declaração sobre o caso. “A NFL e nossos clubes estão profundamente comprometidos em garantir a prática de emprego justo e continuar fazendo progresso em providenciar oportunidades justas pela nossa organização. Diversidade é a base de tudo que temos, e temos alguns pequenos problemas que nossas franquias e nosso time de liderança interna passam mais tempo tentando resolver. Iremos nos defender contra essas reivindicações, que são sem mérito.”


David Santiago/Miami Herald/Tribune News Service via Getty Images

Apoio a Flores aumenta entre o público, mas não há respostas da liga


O apoio que Brian Flores vem recebendo é enorme. O público da NFL apoia a luta do HC e cobra da liga uma resposta, enquanto que os acusados ficam na defensiva. A ação de Flores foi brutal e pesada, pegando todos de surpresa e fazendo com que um holofote gigante permaneça sobre a NFL. Porém, a parte mais forte do processo todo foi a declaração de Brian Flores, e a explicação do porque ele está fazendo isso.


Michael Reaves/Getty Images

“Ao tomar a decisão de preencher a aula de reclamações de hoje, eu entendo que corro o risco de não fazer mais aquilo que amo, que é ser treinador no esporte que amo e que fez muito por mim e pela minha família. Minha sincera esperança é que, ao se levantar contra o racismo sistêmico na NFL, outros me apoiarão e me seguirão de forma a garantir que mudanças positivas sejam feitas para as gerações que virão.”

Entenda, ao fazer o que está fazendo, Brian Flores corre o risco de ser boicotado por todas as franquias da NFL, assim como aconteceu com Colin Kaepernick. Flores está colocando holofotes em problemas sérios e que merecem atenção agora, não daqui uns anos. Flores está lutando contra a opressão do sistema, o racismo sistêmico tão presente na sociedade (em especial na sociedade estadunidense). Não há reports, porém, de nenhum outro treinador se juntando a Brian Flores, mas, sendo sincero, não tenho como culpá-los. Seja lá quem entrar nessa briga junto de Flores, sabe que está correndo o risco de nunca mais fazer parte da NFL, perder seus empregos e fonte do sustento dele e da sua família.


Draftado em 2011, Colin Kaepernick #7 foi boicotado e está fora da NFL desde 2016 após ser o principal nome na NFL no ativismo contra o racismo sistêmico. Créditos: Steve Dykes/Getty Images

Mas ainda há esperança: ainda hoje [02/02], Kimberly Diemert, diretora executiva da Hue Jackson Foundation, empresa criada pelo antigo HC do Browns, Hue Jackson, saiu em defesa de Brian Flores. Em seu twitter pessoal, Diemert parabenizou Flores e disse que iria apoiá-lo na briga, além de revelar que tem provas contra a NFL. Segundo a própria, a NFL teria oferecido dinheiro extra para diversos técnicos e executivos perderem jogos de propósito e conquistarem melhores posições no draft, entre eles o próprio Hue Jackson. Ainda de acordo com ela, a NFL teria oferecido dinheiro para o Browns entregar jogos nas temporadas 2016 e 2017.



Infelizmente, as chances de Brian Flores voltar para a liga são baixas. O racismo sistêmico da NFL é grande, e mesmo se a ação der certo, é provável que o boicote aconteça. Como Flores disse na ação, “Deus me presenteou com um talento especial em treinar o jogo de football, mas a necessidade de mudanças é maior que meus objetivos pessoais.” É necessário tempo e um enorme esforço coletivo, mas Brian Flores é, sem sombra de dúvidas, um vencedor.

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