• Yuri Bortoleto

A construção do Tampa Bay Buccaneers campeão

Existem muitas formas de construir uma equipe na NFL e as reconstruções são muito comuns na liga, sendo possível presenciar pelo menos uma a cada temporada. Levando isso em consideração, vem a pergunta: existe uma forma correta ou mais eficiente de construir um time competitivo?


São várias as linhas possíveis para se fazer um “reboot”: os times podem focar no draft, utilizando-se, inclusive, de seus veteranos para acumular mais escolhas; tentar bons contratos na free agency, trazendo jogadores já “testados” na liga; trocar por talentos que estejam em outros times; ou ainda, todas as opções anteriores juntas. É possível definir também, no processo, se a reformulação vai se iniciar pela defesa ou pelo ataque.


Fonte: Mark J. Rebilas-USA TODAY Sports

O que podemos afirmar é que a reconstrução de um time é um processo demorado, aonde vai haver muitos erros até se encontrar um acerto, o que exige paciência, um plano sólido, análises precisas sobre suas maiores necessidades e até um pouco de sorte. Mas é possível afirmar também que, de tempos em tempos um time é premiado por ter feito a lição de casa como deveria e acaba ganhando o tão cobiçado título máximo da liga, o Super Bowl.


Aqui, contaremos como o campeão do Super Bowl LV, o Tampa Bay Buccaneers, começou a montar o time campeão há oito anos atrás, e que de lá pra cá, existiram erros, acertos, alguma sorte, quatro head coaches e dois general managers passaram pelo time, foram duas campanhas positivas na temporada regular e, finalmente, a coroação de um bom trabalho com a conquista do Super Bowl LV.


Construindo a base pelo Draft


Para um time que, historicamente, foi dono de ótimas defesas ao longo de sua história, tendo inclusive uma estratégia defensiva com seu nome (Tampa 2, que é uma variação da Cover 2), nada mais normal do que começar a reconstrução do time pelo lado defensivo. Por isso, voltaremos para 2012, quando, no segundo round do draft daquele ano, os Buccaneers selecionaram Lavonte David, linebacker de Miami Northwestern. David viria a ser a espinha dorsal da reconstrução da defesa do time. Sendo por anos subestimado por estar em um time fora dos holofotes e cheio de buracos durante tanto tempo, ele finalmente recebeu o reconhecimento que merece depois que o time passou a ter uma defesa medianamente competitiva junto dele, em meados de 2019.


Fonte: Kyle Zedaker/Tampa Bay Buccaneers

Além de iniciar pelo lado defensivo, para a base da reconstrução de Tampa Bay foi escolhido o draft, por ser a forma mais “barata” de se reformular o time. Porém com a facilidade e o baixo custo vem também a incerteza sobre o futuro dos jogadores escolhidos. Mas, no caso dos Buccaneers, foram ótimas escolhas nos últimos anos. São 20 jogadores importantes e que participaram ativamente do time de 2020, escolhidos nos últimos 9 drafts, fora jogadores que estão ou estiveram em outros times. Desses 20 jogadores, 5 foram draftados no primeiro round: Mike Evans, O.J. Howard, Vita Vea, Devin White e Tristan Wirfs, sendo os três últimos, draftados nos últimos 3 anos respectivamente e sendo extremamente impactantes no time de 2020. Os outros 15 jogadores restantes que foram draftados da segunda rodada pra frente, mostrando um ótimo scout feito ao longo do tempo. Apesar do GM Jason Licht ter feito escolhas bastante duvidosas nesse processo, a média ainda é bastante positiva. Observem a lista dos jogadores importantes draftados desde 2012 pelo Tampa Bay Buccaneers:


  • 2012: LB Lavonte David

  • 2013: DE William Gholston

  • 2014: WR Mike Evans

  • 2015: LT Donovan Smith – LG Ali Marpet

  • 2017: WR Chris Godwin – TE O.J. Howard

  • 2018: DT Vita Vea – RB Ronald Jones II – CB Carlton Davis – RG Alex Cappa – S Jordan Whitehead

  • 2019: LB Devin White – CB Sean Murphy-Bunting – CB Jamel Dean – S Mike Edwards – WR Scotty Miller

  • 2020: RT Tristan Wirfs – S Antony Winfield Jr. – WR Tyler Johnson


Posições mais disputadas pedem um pouco mais de dinheiro, ou boas trocas


Apesar da adição de Vita Vea, William Gholston, Lavonte David e Devin White que vieram pelo draft, ainda faltava um pouco de pass rush de elite para “fechar” a defesa e permitir que o time pudesse avançar para o próximo passo: a reconstrução do ataque. Em 2018 os Bucs trocaram escolhas de terceiro e quarto round para trazer Jason Pierre-Paul. Para resumir o quão bom foi esse movimento, posso dizer que, em três temporadas, JPP tem 30.5 sacks. É isso aí, por uma escolha de terceira e uma de quarta rodada, o time conseguiu adicionar ao time um pass rusher com uma produção incrível.


Fonte: Mark J. Rebilas-USA TODAY Sports

O time sentiu que ainda faltava algo para a defesa, então, em 2019, fez mais dois movimentos na free agency que fecharam de vez o front seven que seria campeão. Contratou o OLB Shaquil Barret, ex-Broncos, e o DT Ndamukong Suh, que fez um grande trabalho em todos os times pelos quais passou (inclusive, tendo chego ao Super Bowl em 2018, pelo Los Angeles Rams). O resultado foi Barret tendo 19.5 sacks em 2019 e Suh formando dupla com Vea em uma das melhores linhas defensivas da liga contra o jogo corrido naquele ano. Outro movimento de valor absurdo para Tampa Bay.


Ainda merecem destaques as movimentações na free agency que trouxeram o TE Cameron Brate, em 2014, e o C Ryan Jensen, em 2018, ambos de grande importância para o time, sendo titulares em vários jogos.


Hora de um pouco de sorte e jogadores estrela


Toda essa reconstrução em Tampa Bay resulta em 2020, quando o time iniciaria a reconstrução do seu ataque, e tem a noticia de que Tom Brady estava de saída dos Patriots depois de 20 anos em Foxborough. Existem vários nomes pra isso, mas aqui vamos dizer que o timing foi perfeito. Brady viu um time que tinha uma ótima defesa, uma dupla de WRs de elite, TEs sólidos na posição e um técnico com muita experiência na liga, Bruce Arians. Apesar de existirem alguns problemas na linha ofensiva e no grupo de safetys, os Buccs tinham ótimas posições de draft em uma classe que poderia ajudar com isso. Além disso, Brady viu a oportunidade de, caso tudo desse certo, vencer um Super Bowl no estádio de seu novo time, sendo a primeira franquia a conseguir tal feito na liga, e, assim, mais uma vez, colocar seu nome na história do esporte. Dou outro lado, Tampa Bay sabia que com Winston muito provavelmente não conseguiria chegar nem perto de conseguir esse Super Bowl. Então Brady foi para Tampa Bay e aproveitou a moral com a franquia para trazer jogadores que ele mesmo bancaria com seu nome: o TE, amigo de Patriots e futuro Hall of Famer, Rob Gronkowski; o WR Antonio Brown em quem Brady confia bastante, apesar de seus problemas extracampo; e o RB Leonard Fournette, a quem Brady já tinha demonstrado admiração algumas vezes.


Dessa forma, estava formado o time campeão de 2021. Um trabalho longo, com início em 2012, começando pela defesa, utilizando o draft como base, trocando pontualmente por ótimos jogadores em posições chave e aproveitando algumas surpresas da free agency para trazer as peças finais que formariam esse time tão equilibrado. Houve erros, acertos, muita paciência por parte dos grandes jogadores que já estavam há bastante tempo no time, e a oportunidade de ter o melhor QB possível pela free agency. São muitos fatores que dificilmente se repetirão da forma como aconteceu em Tampa Bay, e com um timing tão perfeito, porém isso não pode esconder que houve sim um planejamento, e que ele foi a base de todo o processo de reconstrução.


Nunca saberemos se existe a tal fórmula para reconstruir um time do zero, mas a história recente do Tampa Bay Buccaneers mostra que paciência, um bom conhecimento em scout de jogadores, escolhas de draft seguras, boas movimentações na free agency e até talvez um pouco de sorte estão entre as coisas que podem trazer um ótimo resultado.

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