• Bernardo Schmitberger

A batata está assando... Pete Carroll sob pressão

Em janeiro de 2010, o Seattle Seahawks anunciou a contratação daquele que viria a ser o maior treinador da história da franquia: Pete Carroll. Ele foi responsável por selecionar em drafts jogadores que entraram para a história da equipe, como o QB Russell Wilson (hoje, indiscutivelmente o maior quarterback da história dos Seahawks), o CB Richard Sherman, o WR Doug Baldwin, o S Kam Chancellor e os LBs K. J. Wright e Bobby Wagner – que, entre outros jogadores brilhantes, formaram o elenco campeão do Super Bowl XLVIII, comandado por Carroll. Além de tudo isso, o vovô é o head coach com mais vitórias na história de Seattle, com um recorde de 124-67-1.


Olhando esses dados, um leitor desavisado pode pensar que Carroll está longe de ser questionado pela torcida de Seattle, visto que foi ele que trouxe para a franquia a maior glória de sua história. Mas não é bem assim.


Até meados da década passada, Carroll era de fato incontestado no comando dos Seahawks. Afinal, a equipe apresentava um excelente futebol americano e havia subido de patamar – não era mais um mero figurante, mas sim um dos protagonistas da liga, e que estava sempre marcando presença nos playoffs. Mas a torcida de Seattle queria (e ainda quer) mais.


(Photo by Kevin C. Cox/Getty Images)

Em 2017, mesmo com um recorde positivo (9-7), os Seahawks ficaram de fora dos playoffs pela primeira vez em seis anos. Naquela temporada, a equipe de Carroll foi muito criticada por não estabelecer um jogo corrido consistente – para se ter uma ideia, o QB Russell Wilson foi o principal corredor do time – e por não oferecer uma proteção sólida a seu quarterback – crítica que já ocorria há algum tempo e perdura até os dias de hoje. Carroll começava a balançar no cargo.


Nos três anos seguintes, os Seahawks conseguiram a almejada classificação aos playoffs. Mas, para torcida e imprensa, isso não é suficiente. Em Seattle, há um forte sentimento de que todo ano em que a equipe não chega ao Super Bowl tendo Wilson como seu quarterback é um ano desperdiçado; afinal, um passador como ele não se encontra em qualquer esquina. E, para revolta ainda maior da torcida, o plano de jogo de Carroll parece subutilizar o potencial de seu quarterback ao preterir o jogo passado em prol do jogo corrido.


Sobretudo após a última temporada, as críticas sobre Carroll se intensificaram. Após um começo de temporada pouco usual em termos de estilo de jogo, marcado pelo mantra “Let Russ Cook”, que prezava por uma maior valorização do jogo aéreo, o ataque de Seattle esfriou e não convenceu mais a partir da semana 6. Some a isso o fato de que a defesa dos Seahawks caminhava para ser a pior em jardas cedidas de toda a história da liga. Com a eliminação precoce nos playoffs para os Rams na rodada de wild card, a torcida passou a cobrar a cabeça de Carroll.


(AP Photo/Scott Eklund)

A situação piorou quando surgiram boatos de que Wilson estaria considerando trocar de time – seria inaceitável perder um dos QBs mais talentosos da atualidade por insistir em um plano de jogo falho e que não mostra resultados já há algum tempo. Talvez por sorte, talvez por competência, Wilson acabou ficando em Seattle (pelo menos por mais um ano) – e provavelmente a contratação de Shane Waldron como coordenador ofensivo para o lugar de Brian Schottenheimer tenha pesado na decisão do QB.


A verdade é que Wilson está insatisfeito por não ter uma linha ofensiva confiável, pelo plano de jogo de Seattle subutilizar seu potencial e por não ter voz nas decisões da equipe – afinal, Carroll é quem centraliza todo o poder de ação nos bastidores (algo que parece ter se intensificado após a morte de Paul Allen, então dono da franquia). E muita gente está do lado de Wilson nesse embate, o que joga ainda mais pressão para cima dos ombros do treinador.


Outra verdade é que, apesar de tudo, Wilson deu mais uma chance aos Seahawks e à comissão técnica. A contratação de Shane Waldron, que promete imprimir à equipe um estilo de jogo mais aéreo e diversificado, pareceu conter os ânimos em Seattle. Wilson tem mais alguns anos de janela de alta produção, e cabe a Carroll decidir se vai tentar aproveitar o talento de seu quarterback para entrar de vez para a história como um dos maiores treinadores da liga ou se vai jogar fora essa oportunidade única.

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