• Vinicius Soares

1ª rodada do Draft – Escolher ou trocar? Por trás da decisão

No futebol da bola redonda, os jogadores tem um contrato firmado com o seu time que contém um passe fixado em um determinado valor e se algum clube pagar essa multa rescisória adquire os direitos desse atleta. Na NFL não é assim que os negócios funcionam, pois uma vez que o atleta está sob contrato com uma franquia não há multa rescisória para adquirir os direitos do jogador, ou seja, é necessário negociar com a franquia que detém o vínculo com o atleta e acertar uma compensação que deve ser enviada para fechar negócio.

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Como assim compensação, você não disse que não havia pagamento de multa rescisória? Então, na NFL as escolhas de draft são a moeda de troca mais valiosa na negociação de atletas sob contrato e são elas que são envolvidas nas transferências de jogadores. Dentro deste mercado de escolhas de draft, não há pick mais valiosa que uma de 1ª rodada, de modo que quando se trata de um negócio que envolve grandes jogadores, as escolhas de dia 1 são o mínimo oferecido para que as equipes iniciem as tratativas. Outra forma de investimento de picks de draft é quando uma equipe deseja subir no recrutamento daquele ano, e para isso entrega escolhas futuras no negócio.


No draft de 2021 não tivemos nenhum caso de uma equipe que tivesse escolhas comprometidas por um trade up em anos anteriores, todas as first round picks entregues em negociações foram em um troca envolvendo um ou mais jogadores. Houve sim negociações durante a offseason deste ano em que equipes entregaram suas escolhas futuras para realizar trade up’s, porém o objetivo deste texto é abordar as trocas já consumadas, ou seja, picks cedidas em anos anteriores que as equipes já utilizaram, seja selecionando jogadores ou em alguma outra negociação. Em minha opinião só é possível realmente avaliar o resultado de uma troca na NFL depois que as escolhas de draft envolvidas são utilizadas de alguma forma, pois picks de draft por si só não são garantia nenhuma de sucesso, é necessário saber qual jogador será escolhido com elas ou como as equipes irão capitalizar através de seu valor.


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Um exemplo desta situação é o Las Vegas Raiders, o time ganhou 2 escolhas extras de 1ª rodada pelo EDGE Khalil Mack em 2018, o que no momento da negociação pareceu um bom negócio para ambos os lados, porém passados 2 anos, depois de Jon Gruden usar essas duas picks percebemos que os Raiders se deram muito mal no negócio, pois o time selecionou um RB – Josh Jacobs – e um CB – Damon Arnett – que foi um belo de um reach com as picks extras, e de quebra, Las Vegas é uma das piores equipes pressionando o QB adversário desde 2018.


Dito isso, vamos ver qual o resultado das escolhas de 1ª rodada envolvidas nas negociações recentes da NFL.


Vou considerar apenas as escolhas de 1ª rodada envolvidas nas negociações


3ª escolha geral

O Houston Texans era o dono original desta escolha, porém eles a cederam aos Dolphins em uma troca no ano de 2019 para adquirir o Offensive Tackle Laremy Tunsil e o Wide Receiver Kenny Stills. A troca envolveu outras duas escolhas de draft dos Texans – uma 1ª rodada em 2020 e 2ª rodada em 2021 – e com isso os Dolphins, apesar de terem sido um time de 10 vitórias em 2020, ganharam o direito de selecionar dentro do Top 3 do recrutamento desse ano.


23ª escolha geral

Originalmente esta escolha pertencia ao Seattle Seahawks, porém a equipe a entregou ao New York Jets na troca para adquirir os serviços do safety Jamal Adams. Além dela, Seattle entregou suas picks de 1ª rodada de 2022 e 3ª rodada de 2021.


BY SEATTLE SEAHAWKS

25ª escolha geral

Esta escolha seria do Los Angeles Rams, mas a equipe a entregou aos Jaguars na troca que trouxe o cornerback Jalen Ramsey à equipe em 2019. Na negociação os Rams enviaram as escolhas de 1ª rodada do draft de 2020 e 2021 além de uma 4ª rodada de 21.


31ª escolha geral

Em uma das muitas ações da missão de proteger Patrick Mahomes, os Chiefs cederam sua escolha de 1ª rodada de 2021, junto com suas escolhas de 3ª e 4ª rodadas deste ano e a de 5ª rodada de 2022 ao Baltimore Ravens pelo Offensive Tackle Orlando Brown Jr.


Um fato interessante a ser percebido aqui é que das quatro equipes que realizaram trocas envolvendo suas escolhas de 1ª rodada, três o fizeram envolvendo múltiplas picks de dia 1 no negócio, tal qual os Bears fizeram por Khalil Mack no exemplo citado acima no texto. O que isso significa? As equipes estariam desistindo de utilizar suas escolhas de 1ª rodada?


Rich Kane/Getty Images

Acredito que não seja essa a questão, pois analisando o escopo inteiro da 1ª rodada, apenas 12.5% foram entregues pelos times em negociações de modo que 28 equipes ainda escolheram algum jogador no primeiro dia do draft. O ponto a ser analisado aqui é o sentido ou não deste investimento e o impacto disso no futuro de uma equipe.


Quando se analisa o draft da NFL friamente através de métodos estatísticos, percebe-se que o índice de aproveitamento das escolhas de 1ª rodada é de 50%, ou seja, metade dos nomes selecionados no 1º dia de recrutamento não serão a solução para seus times, logo, se uma equipe troca 2 escolhas de 1ª rodada por um jogador provado na NFL e com produção de alto nível, porque isso seria errado? Teoricamente eles estão trocado duas oportunidades com 50% de chances de encontrar um bom jogador por 100% de certeza em um atleta experimentado no nível profissional. No fim das contas a matemática está do lado dessas equipes, e muitas vezes a resposta dentro de campo também, basta olhar os Rams, o time está sempre disputando vaga nos playoffs e inclusive disputou um Super Bowl em 2018, sendo que desde 2016 o time não escolhe um jogador na 1ª rodada, ou seja, eles vivem um constante all-in e que embora não tenha culminado em títulos ainda, trouxe resultados melhores dentro de campo do que a maioria das franquias da Liga.


Qual o ponto negativo que há nisso então? O salary cap. Por um simples motivo, as escolhas de draft são nomes baratos, dando certo ou não, eles não oneram os cofres da franquia, por que seus contratos são tabelados e evitam mega investimentos nas apostas, como aconteceu no famoso caso de JaMarcus Russell, que acabou sendo um tremendo de um bust. Se um time planeja adotar essa filosofia de trocar escolhas de 1ª rodada por veteranos caros o front office precisa estar preparado para realizar um bom manejo do salary cap ou muito rapidamente as contas não vão mais fechar e a reconstrução virá de maneira intensa.


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Outro ponto interessante é em quais posições essas escolhas são investidas, porque é nítida a diferença de valor entre as posições na NFL, um Quarterback é de longe a posição mais valiosa de uma equipe, e logo abaixo estão as posições consideradas Premiuns, que costumam ser a espinha dorsal de uma grande equipe, como Edge Rushers, Offensive Tackles e Cornerbacks. Nestas posições o investimento de duas picks de 1º rodada tende a ser mais justificável, porque ter um jogador de elite nessas funções impacta bastante a equipe, basta ver o efeito que Jalen Ramsey teve na ótima defesa dos Rams de 2020. Quando se pensa em outras posições como Linebacker, Interior Defensive Lineman, Safety e Running Back essa alternativa tende a se tornar desvantajosa, porque o gap de talento entre os prospectos de dia 1e 2 não é tão grande quanto nas posições Premiun, sendo mais fácil encontrar nomes produtivos em rodadas intermediárias do draft. Sem entrar em exemplos específicos, basta vermos quantos nomes selecionados como All Pro nessas posições vem da 2ª, 3ª e em casos mais raros até mesmo da 4ª rodada. A frequência disso é muito superior nessas posições do que nos setores primordiais, onde nomes de 1ª rodada costumam dominar a Liga.


Analisando em específico a posição de Quarterback, isso fica mais nítido, se pegarmos como base os jogadores da posição eleitos MVP, e por consequência First Team All Pro o último jogador que não foi selecionado na 1ª rodada escolhido como jogador mais valioso da temporada – tirando Tom Brady porque ele não é parâmetro para qualquer comparação na NFL – foi Rich Gannon em 2002(!), e desde lá 7 QB’s diferentes venceram o prêmio e todos foram selecionados na 1ª rodada.


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Em suma, escolher na 1ª rodada do draft ou investir essa pick em uma negociação é uma decisão muito singular que precisa ser analisada em cada caso, pois como vemos neste ano, das 4 equipes que tomaram essa decisão com sua escolha de 2021, 1 – os Rams – teve grande sucesso na decisão, 1 – os Texans – viu sua decisão se provar totalmente desastrosa e 2 ainda estão em análise, sendo que a chance de sucesso dos Chiefs parece muito maior que a de Seattle. Tudo que é tomado como verdade absoluta na NFL costuma terminar mal, nem somente o draft soluciona todos os problemas de uma equipe, assim como só a Free Agency também não dá conta de montar um elenco competitivo, o importante é estar atento às oportunidades e analisar as probabilidades de sucesso de uma ou outra decisão, porque na emoção é que acontecem catástrofes como as duas picks de 1ª rodada trocadas pelos Texans em 2019. O segredo do sucesso na NFL está no planejamento, tanto para draft como para Free Agency, então antes de julgarmos a decisão A ou B de um front office, é bom analisarmos como o time optou por aquele caminho.

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